terça-feira, abril 11, 2006

O sofrimento


Uma das coisas mais difíceis é reconhecermos que a causa principal do nosso sofrimento, está em nós, é, em certa medida, nós, o nosso ego.
O ego toma conta da mente consciente e alimenta incessantemente uma corrente de pensamentos, anárquica, imparável, desgastante. Essa actividade pensante incessante desgasta-nos de forma inexorável. Sem que nos apercebamos disso. Julgamos que o desgaste energético resulta da actividade física, mas a actividade mental é muito mais desgastante.
E se durante a actividade física nos envolvermos nessa teia de pensamentos sem nexo, o desgaste é multiplicado. É que se acharmos que o que estamos a fazer é penoso, muito difícil, talvez injusto, porque há pessoas que podem dar-se ao luxo de não fazer coisas desta naturezam, etc., etc., estamos a torturar-nos sem razão.
Isto porque o que fazemos é algo que nos é dado e que, na sua radicalidade, não tem a ver com o que os outros têm ou não que fazer. A nossa vida, se for comparável a um filme, é uma super-produção em que nós somos os actores principais. Nada do que fazemos está fora do guião. Podemos improvisar, mas isso faz parte do jogo. O que não podemos é ceder o protagonismo a outro actor. Se fizermos estamos a desvirtuar o sentido de toda a produção. A nossa história é tão necessária quanto a história de cada um dos demais seres.
Por isso, o que acontece a cada momento, é uma cena duma história que tem um sentido que, muitas vezes, escapa a quem só dá importância a certos pormenores ou, o que é mais comum, a quem só dá importância aos pormenores, desligados do todo em que se inserem. O negativo ou positivo, dependem de factores muitas vezes ligados às apreciações egóicas. Para o ego tudo o que o limita é negativo. O silêncio, a imensidade, a entrega aos outros, a despreocupação, são coisas com as quais o ego se dá mal. Por isso fugimos delas.
É impressionante a aversão que a maioria das pessoas tem em relação à meditação. O mergulho na interioridade é recusado, muitas vezes em nome de coisas sem qualquer importância, ou completamente despropositadas. Há até a ideia de que meditar se opõe aos afazeres da nossa vida quotidiana.
Nada mais errado.
Meditar é a única actividade (para além do sono) em que se dá um excesso de energia, a energia que é consumida fica muito aquém da que é assimilida ou reintegrada nos nossos sistemas vitais. Há um re-equilíbrio de todo o nosso ser, um alinhamento dos centros energéticos e uma harmonização de todas as nossas funções, físicas, emocionais, mentais...
O sofrimento resulta da desarmonização vital. O que tem muitos níveis e gradações.
O que não devemos acreditar é que o sofrimento físico, as doenças que o provocam, é algo desligado da mente e do espírito. As doenças não são meros acidentes biológicos,lances da roleta genética e ambiental.
Também aqui a nossa atitude de base perante a vida é decisiva. O que fazemos e o que não fazemos reverte sobre nós, fazêmo-lo sempre a nós, mesmo que sejam os outros o seu alvo. Se uma pessoa me irrita, essa irritação, que tem origem em mim, provoca-me danos consideráveis a todos os níveis da minha presença no mundo. Pode perturbar a minha relação com o meio circundante, por exemplo, ao fazer com que eu evite os locais frequentados por essa pessoa, mas também pode manifestar-se a níveis mais entranhados. Isto porque ao rejeitar uma pessoa, estou a rejeitar-me a mim mesmo. Nã vivemos separados.
Por isso, a integração, ou o que em muitas tradições religiosas tem o nome de perdão, é a chave para evitarmos o sofrimento.
Se estou num sítio onde não queria estar, estou a recusar um momento da minha vida, estou a desligar-me duma parte de mim. Se estou a trabalhar, mas a minha mente está a pensar nas férias ou no que eu poderia estar a fazer nesse momento, se pudesse escolher ir para outro lugar, estou, de facto a criar cisão em mim, estou a rejeitar uma parte decisiva de mim, este momento da minha presença do mundo. Vivemos constantemente em dissossiação. Estamos, portanto, a matar-nos de uma forma permanente e irrevogável, enquanto nos mantivermos sob a ditadura do ego.
Não se trata de não exigirmos justiça e respeito. Trata-se de aceitarmos que somos imp0rtantes, seja qual for a situação em que nos encontremos. Se a realidade nos acolhe neste aqui e neste agora, é porque somos necessários, aqui e agora. Por isso, estamos sempre em ligação com a fonte primordial de tudo. À luz dessa fonte, ou desse princípio ontológico, todos os momentos da nossa vida são equivalentes. Nada é desprezível ou supérfulo. Estejamos a lavar a loiça ou nalgum lugar mediático a tentar salvar o mundo, estamos a fazer o que é preciso. São pequenos passos que nos levam a percorrer grandes distâncias. Por vezes é necessário saltar, correndo riscos, mas no fim do trajecto, contas feitas ao que fizemos, cada um dos momentos da caminhada é igualmente necessário.
Por isso, a preocupação com os desafios que teremos, ou não que enfrentar, é uma fonte de sofrimento, de apreensão, que é supérfula, como, aliás, todas as fontes de sofrimento. Se temos sede, não precisamos dum poço vazio. E se soubermos que um poço está vazio, não nos abeiramos dele quando temos sede. Por isso, os acontecimentos futuros, que não existem, não devem ser fonte de preocupação.
Devemos, sempre, perguntar: "o que é que eu tenho que fazer agora? O que é que eu posso fazer agora?"
Se podemos fazer algo, agora, para resolver algum problema, então devemos fazê-lo. Mas se tal não for possível, para quê desgartar-nos?

1 comentário:

Rita disse...

Grata pelo conforto que sinto pela concordância ao ler o que escreves.
Bem hajas