sexta-feira, fevereiro 17, 2006

alienação


Nós somos,ao nível da consciência egóica, aquilo em que acreditamos.
Nós somos, a esse nível, o que acreditamos ser. Se acreditamos ser doença, somos doentes, se acreditamos ser tristeza,somos tristes, até nas mais ínfimas coisas da vida quotidiana, como comprar um bilhete de autocarro, por exemplo. Tristemente compramos um bilhete, vergados pelo peso do preço injusto e recém-aumentado... E, nesse caso, não nos faltarão razões para acreditarmos na tristeza da nossa vida: somos governandos por marcianos e esse facto é indesmentível, como poderia? Qualquer dia o senhor Spielberg e o inenarrável Tom Cruise ainda vêm cá filmar uma sequela da guerra dos mundos...
Ainda há dias uma senhora que está à frente do ministério da educação dizia que as aldeias onde vão fechar escolas já estão mortas.
No passado,ou noutras paragens mais acaloradas, os tiraninhos usavam outros meios, menos eufemisticos, para se fazerem respeitar.
Mas vivemos na era do neoliberalismo sem ética. Tudo é permitido em nome do défice. E, de facto, o défice de humanidade aumenta a olhos vistos. Essa gente não tem espelhos? Nessas aldeias que estão "moribundas" que, nesta voragem de insanidade que assaltou a nossa casa comum, vão ver a sua escola fechar em nome da lista do merceeiro-mor e do progresso dos TGVs e das Otas e das Opas hostis abençoadas por quem (des-)manda, nessas aldeias ainda se vive a sério, luta-se pelo possível.
Eu, no que me toca, recuso-me a acreditar na tristeza. Esta gente que paira acima da cabeça do povo, é triste, é verdade. Mas o seu exemplo faz-me acreditar cada vez mais na alegria.
No meu coração mandam os que lá estão. E esse é o único governo que interessa.
E, de resto, nada pode impedir-me de ser livre. Não falo daquela liberdade muito
servil de quem anda por aí e faz o que quer, e assim, mas a liberdade de me acreditar irmão do vento, do sol, da madrugada e dos pardais.
Tudo coisas que não pagam Iva.
Nem tapam o défice. Porque são excessivas.
Quem se acredita pequenino, quem se acredita deficitário, é, pequenino e deficitário em virtude de um capricho seu. Porque todos nós somos imensos, mesmo aqueles que se julgam mais do que os outros, e assim se apoucam, e querem decretar o fim de aldeias centenárias.
Mas deixemos os loucos entregues as seus legítimos devaneios. É certo que estão a delapidar o nosso futuro material. Isso é inegável. Mas mesmo assim estão entretidos com coisas fúteis. E enquanto viverem entretidos o mundo vai-se livrando dos campos de tortura e das inquisições que acendem fogueiras. Se bem que nesse campo exista muito a fazer. Por isso, a globalização que avance, que o progresso neoliberal se instale por todo lado. Assim os tiraninhos do século XXI dos decretos e das bulas, terão, em todo o lado, o seu parque de diversões. E os povos serão deixados e paz, para viverem a sério.
Quanto ao fecho das escolas, talvez seja essa uma medida muito acertada, no desacerto de quem a decreta por raiva, por pura raiva, pois as pessoas atrevem-se a viver fora dos padrões dos engomadinhos intelectuais da esquerda pós-moderna.
Quando todas as escolas fecharem, quando todos os homens, sem excepção, assumirem como sua missão existencial a educação de si próprios e a compaixão para com todos os outros, quando deixarmos de ter centros de detenção infantil, centros de domesticação do futuro, então, ninguém acreditará na tristeza.
Mas até lá talvez os tristes possam dar umas voltinhas de comboio de alta velocidade. Deve dar um belo passeio domingueiro. E não custará muito arranjar um farnel e juntar o montante necessário para os bilhetes. Isto se não se for funcionário público ou psicopata dos jornais da tvi. Esses ainda terão de prestar contas aos gestores do parque de diversões. Talvez possam ir dar umas voltitas no comboio-fantasma que neste momento está ancaixotado à espera doutro local para instalação da feira popular. Que tal nos jardins do palácio de S. Bento?

1 comentário:

Luís Lobo Henriques disse...

De mestre, meu caro! De mestre!
Um grande abraço.